Juliana Veigaredação criativa + branding + estratégia

Caçador de Mim

Eu devia ter uns 9 anos. Saímos para fazer compras. Eu sempre ia com você ao mercado, porque qualquer tarefa ao seu lado tinha o prazer de aproveitar a sua companhia. E, pra mim, as companhias sempre valeram mais do que as tarefas.

O mercado era longe. E nós seguíamos a pé, preenchendo uma caminhada banal com uma infinidade de detalhes que encontrávamos ou de assuntos que inventávamos pelo caminho. Eu saltitava pelas calçadas e brincava de me equilibrar no meio-fio, enquanto você me falava da letra de Caçador de Mim. Eu já amava todas as músicas do Milton que você tinha em casa mas, até então, não entendia a profundidade que você me apresentou naquele momento.

Esse dia ficou marcado como um grande símbolo do seu tamanho pra mim. Porque, desde bem cedinho, você me ensinou a coisa mais valiosa de todas, que é olhar para dentro. De mim mesma. Do outro. E contemplar a complexidade e as profundezas da vida. Você sempre compartilhou comigo as suas reflexões sobre a vida e o ser humano. Nunca subestimou minha capacidade de entender. E adorava me ouvir. Assim, a gente construiu juntos um lugar só nosso. Cheio de poesia, letra e música, marés tranquilas e tardes intermináveis de frente pra lagoa.

Eu cresci, você se foi, e esse lugar continua existindo, inabalável, dentro de mim. O tesouro do nosso tempo juntos é a herança que trago comigo. Hoje, é dele que eu tiro os recursos pra regular as angústias da minha quarentena. É nele que eu encontro a possibilidade de viajar para os lugares que as paredes não cercam. É nele que eu busco o aconchego que contorna o confinamento solitário, porque foi nesse lugar que aprendi a fazer companhia para mim mesma.

A sua presença suave me ensinou sobre viver, sobre parceria e sobre amor. Na sua delicadeza, sempre teve espaço para receber o meu jeito de viver as coisas. E sempre teve tempo para o meu tempo. Porque você nunca me apressava. Mesmo quando eu atrasava a ida ao supermercado, brincando de saltitar pelas calçadas e de me equilibrar no meio-fio.

A imagem é de uma outra época, pois a cena dos 9 anos não foi registrada em foto. Nem precisava.